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Sobre educação: reflexões que emergiram no Congresso de pedagogia Waldorf - Floripa, julho 2026

por Bia Tadema


“A educação é o ponto em que se decide se se ama suficientemente o mundo para assumir responsabilidade por ele.”

Hannah Arendt



Participei de um pedacinho do Congresso de Pedagogia Waldorf que aconteceu em Florianópolis agora em Julho.  O tema foi ‘Fenomenologia e Educação: a contemplação do início da vida e suas reverberações no percurso escolar’ e reuniu mais de 650 educadores. Incrível sentir a potência de tanta gente junta que se deslocou de muitos cantos do Brasil pra refletir sobre educação.

 

Encontrei pessoas queridas, fui tocada por falas lindas dos mestres Luiza Lameirão, Constanza Kaliks e Craig Holdrege; tive conversas que me animaram e outras que me entristeceram…tem muita gente adoecendo como educador.


Em meio a tudo isso, me reencontro com reflexões que fui anotando em meu caderninho, e que desorganizadamente compõe o que segue. Sem referências exatas, peço licença a todos que ouvi e conversei pra trazer o que de tudo isso segue reverberando em mim.


Em um contexto escolar cada vez mais cheio de demandas, como criar espaço para o cultivo da observação? 


Sem resposta fácil. Mas, ao assistir ao novo filme da cineasta e pesquisadora Renata MeirellesÁrvoreSendo' me chamou a atenção o entusiasmo e mudança que surge nas educadoras que observaram as crianças nas árvores como parte desse processo de pesquisa. 


A criança dá, vive, semeia esperança. Ela persiste e permanece aberta ao mundo. 


A observação das educadoras deu suporte para crianças experimentarem, e se desenvolverem na relação com as árvores. Perceber a criança no seu processo sustenta algo fundamental. E a beleza é que nesse processo, o educador também muda. 


E muda como? Fiquei pensando na importância de compreender mais do que muda também em nós quando observamos.  


Luiza Lameirão fez uma fala linda que terminou trazendo o anoitecer como momento de organização do que vivenciamos, quando chega o sereno. Tem algo ai…


Em outro momento, Constanza Kaliks falou sobre a educação como fenômeno vivificante. Um encontro com o mundo edificado, que aprende face ao outro. 


Ela trouxe Hannah Arendt e Paulo Freire que dizem que a criança autoriza o adulto a mostrar, a apresentar a ela o mundo. A criança confia e reconhece o adulto como co-responsável pelo mundo, ela fundamenta a autoridade do adulto. 


Fiquei bastante tocada com a grandiosidade dessa constatação. Essa confiança da criança nos dá grandes poderes. 


Fiquei pensando na relação com minha sobrinha de 6 anos, a Clara. A sensação maravilhosa de sentir essa entrega dela quando fantasiamos juntas, quando ela me pede pra ser alguém na brincadeira. Tem momentos que estamos brincando e um adulto entra, e ela para a brincadeira no mesmo instante. O adulto que acha fofo ou engraçado e demonstra quebra algo frágil e extremamente precioso. Sinto que ela se sente traída, quase desrespeitada. 

Sai dessa fala refletindo sobre as diferentes  nuances da relação com Clara. Na maneira com que acolho essa confiança que ela deposita em mim, na maneira que honro perante ela minha co-responsabilidade pelo mundo. 

É bonito, potente e assustador. 


E aí trago reflexões suscitadas pelo querido mestre Craig Holdrege


Craig trouxe atenção ao nosso pensar e julgar. O que geralmente não faz parte da nossa consciência - a maneira como pensamos - está intrinsecamente ligado ao sentido que damos ao mundo. 


Vivemos tempos de: informação, desinformação e distração.


A informação hoje é totalmente acessível, tudo na palma das mãos com nossos celulares. Porém, o que nos é tão facilmente acessível, nos conta algo totalmente sem contexto.  Aprendemos sem ter tido a experiência, a vivência daquele conhecimento.


Quando usamos uma informação e a compartilhamos, mostramos que confiamos nela, de certa forma a endossamos, mesmo que a gente não conheça nada sobre o que estamos falando. 

Acreditamos que os outros têm a informação errada, ficamos desconfiados…  e pra piorar, agora temos IA! Que rouba nosso pensar, e dá possibilidades a algo que nem compreendemos.


O que seria um conhecer que cria raízes no mundo? (e não nos separa ainda mais dele) 

Craig trouxe essa pergunta que ficou ressoando comigo:


Como sei o que sei? 


Como experiencio o oxigênio e não apenas aprendo que respiramos? 

Como aprendo a confiar (ou desconfiar) do que estamos escutando? Que capacidade é essa?


Talvez esse saber acessível que vem com todas as explicações também roube parte do mistério. Será que precisamos deixar talvez algumas lacunas no que sabemos? Qual o lugar do mistério?


Em tempos de fake news, de chatGPT, de grandes verdades; qual a diferença de um pensar e um conhecimento que nasce enraizado na experiência, no fazer?  Qual o momento certo de trazer um conceito que ilumina o que está sendo experienciado?


Perguntas que levo comigo sem pretensão de chegar nas respostas, mas como guias, ou focos para a pesquisa ‘Educação, juventudes e complexidades’, que estamos começando! 


Em agosto vamos realizar dois encontros com educadores (São Paulo e Recife), um espaço de investigação coletiva sobre o momento dos jovens e o papel da educação na travessia para a vida adulta, facilitado por Allan Kaplan e Sue Davidoff, criadores do Ativismo Delicado.


Se você quiser saber mais, temos um grupo de whatsapp onde estamos trocando sobre essa investigação coletiva. Acesse no link


E vamos juntos!

Abraços,

Bia

 
 
 

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