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Perceber: do automatismo ao olhar vivo

por Bia Tadema


Muita gente tem vontade atuar por um mundo melhor.

Mais justo, mais ecológico, mais ético.

Entendemos que crise climática é algo ruim, que a extinção de espécies não pode ser bom sinal, que as violências estruturais que nos atravessam como racismo e toda a lógica colonial precisam ser eliminadas. 


Sabendo de tudo isso, é esperado que a gente queira influenciar mudança.


Queremos que as pessoas se conscientizem, que a gente consiga agir em prol de um mundo mais sustentável, regenerativo, coerente.

Queremos ‘resolver’ os problemas que vemos no mundo.


Essa é uma atuação que parte do princípio de que sabemos o que precisa mudar.

Então nosso trabalho passa a ser de influenciar a mudança, e começamos a nos fazer a pergunta: Como mudar os outros para melhorar o mundo? 


Porém, trago uma questão provocada por dois ativistas professores que amamos, Allan Kaplan e Sue Davidoff. Será que achar que estamos certos e o mundo precisa mudar não reforça uma lógica de controle, que no fim do dia, é parte do problema? Será que essa ideia de mudar o outro para algo que acreditamos ser o certo não reforça a lógica colonial de controle, de poder, de manipulação? Será que isso não é parte do problema?


Mas se não isso, então o que?


Vou deixar a pergunta ‘Como mudar o mundo?’ de lado por um minuto, e tentarei um outro caminho pra tentar ampliar a nossa reflexão. 


Trago uma imagem que foi usada por um filósofo professor da Schumacher College, Henri Bortoft, em seu livro ‘Taking appearance seriously’ ('Levando a aparição a sério', infelizmente sem tradução). 



Algumas pessoas conseguem ver uma girafa escondida entre formas pretas e brancas. Outras não. Curiosamente, a imagem nunca muda — o que muda é a maneira como nosso pensamento organiza aquilo que vemos. E, quando finalmente vemos a girafa, não conseguimos mais “desver”.


Essa experiência simples revela algo profundo: não vemos o mundo de maneira neutra. Participamos constantemente da construção de significado daquilo que percebemos.

Nossa percepção não é apenas sensorial. Primeiro percebemos algo; depois damos sentido ao que percebemos; e, então, pensamos, falamos e agimos a partir desse significado.


Em outras palavras: não vemos simplesmente “coisas”. Vemos significados.

E esses significados são organizados pelas histórias, conceitos, experiências e pressupostos que carregamos.

O problema é que grande parte desse processo acontece automaticamente, sem que a gente se de conta.


Vivemos dentro de formas habituais de perceber o mundo sem perceber que estamos percebendo através delas. E talvez isso tenha consequências profundas na maneira como respondemos às crises contemporâneas. Somos extremamente eficientes em diagnosticar problemas, criar estratégias, metas, indicadores e planos de ação. Tudo parece urgente. Tudo pede eficiência, rapidez, impacto. Mas, ao mesmo tempo, corremos o risco de responder às crises através da mesma lógica instrumental, gerencial e controladora que ajudou a produzi-las.


Falta tempo para ampliar o que vemos. Para refletir. Para perceber o que nossas próprias formas de pensar estão produzindo.


Na Comunidade Confluência, nos inspiramos nas práticas de professores como Craig Holdrege, Patricia Shaw, Allan Kaplan e Sue Davidoff para cultivar justamente esse outro tipo de atenção. Uma atenção menos automática, que não se orienta pela lógica do controle e eficiência, mas sim que se compromete em ampliar o que se vê, a sair do automatismo com presença, observação e relação.


Isso não significa deixar de agir.


Significa agir a partir de uma percepção mais viva, menos automatizada, viciada, inviesada.


Talvez a transformação que buscamos no mundo dependa menos de convencer os outros e mais de ampliar nossa capacidade de perceber. Perceber como fazemos sentido do mundo. Perceber o que nossos hábitos de pensamento iluminam — e também aquilo que escondem. Perceber como o modo como enxergamos participa do próprio surgimento do mundo que habitamos.


E então algumas perguntas começam a surgir:

Quanto do que vejo está realmente 'lá' ? Quanto deixo de fora?

O que muda quando amplio o que vejo, ou como vejo?

Como transformar nossa percepção (e atuação) em um processo vivo? 

E, talvez principalmente: que tipo de mundo se torna possível quando começamos a perceber de outra maneira?


Nossa Comunidade nasce como um espaço para habitar essas perguntas coletivamente. Um espaço de encontro para pessoas que desejam cultivar formas mais conscientes, sensíveis e críticas de perceber e agir no mundo. Ao longo dos encontros, vamos experimentar práticas de observação, diálogo e reflexão que buscam ampliar nossa percepção e sustentar ações menos automáticas e mais conectadas com a complexidade da vida.


Se essas perguntas ressoam em você, vem com a gente!


 
 
 

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