O porão colonial da crise ecológica: por uma ecologia decolonial com Malcom Ferdinand
- escolaschumacherbr
- há 22 horas
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É muito comum, quando falamos de crise ecológica, recorrer à imagem de que “estamos todos no mesmo barco.” A metáfora tem sentido — o planeta é um só, o clima não respeita fronteiras, os limites da biosfera nos dizem que estamos todos juntos nessa travessia.
Mas e se prestarmos atenção em como esse barco está organizado? Quem está no convés e quem está no porão? Quem sofre primeiro quando a tempestade chega?
Essa é uma provocação central de Malcom Ferdinand em Uma Ecologia Decolonial (Editora Ubu) — um livro robusto, difícil de sintetizar. Ferdinand é caribenho, da Martinica, e sua trajetória pessoal faz um arco interessante: partindo da engenharia ambiental, vai parar na sociologia, articulando de uma maneira muito fundamentada a necessidade de conectar pautas ambientais, sociais e raciais:
Não dá pra falar de crise ambiental sem olhar para as questões raciais e sociais. E não dá pra reparar as desigualdades sociais sem enxergar a destruição ecológica que as agravam.
![Joseph Mallord William Turner, Slavers Throwing Overboard the Dead and Dying, Typhoon Coming On [Escravistas lançando mortos e moribundos ao mar, tufão chegando], 1840. © Museum of Fine Arts, Boston.](https://static.wixstatic.com/media/62c487_033ea07f7e5548ffa798c70b4f0287a8~mv2.png/v1/fill/w_980,h_736,al_c,q_90,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/62c487_033ea07f7e5548ffa798c70b4f0287a8~mv2.png)
O navio negreiro como metáfora atual
Ferdinand propõe que, se estamos no mesmo barco diante da crise ecológica, esse barco se parece muito mais com um navio negreiro do que gostaríamos de admitir.
No convés, homens brancos e livres começam agora a se preocupar com as tempestades que se aproximam — formulando teorias, propondo soluções, construindo conceitos como o Antropoceno. No porão, estão as populações que foram historicamente removidas de seus territórios, escravizadas, exploradas. E que são, ainda hoje, as primeiras a sofrer os efeitos dessas mesmas tempestades.
Não é só uma figura histórica, mas metáfora para a estrutura social atual. Quais são os atuais porões da sociedade? Ferdinand relembra uma cena perturbadora: durante as tempestades atlânticas, africanos escravizados eram jogados ao mar para “aliviar” o peso do navio. E hoje, quem sofre primeiro quando a tempestade chega?
O habitar colonial
Para entender como chegamos aqui, Ferdinand analisa o que chama de habitar colonial — o modo de viver que se instalou no processo de colonização e que nunca foi verdadeiramente deixado para trás. Esse habitar se organiza em torno de três relações de ruptura: com a terra, com os não humanos, e com os outros humanos.
A relação com a terra, no projeto colonial, não é de pertencimento, mas de expropriação. Alguém que vem de fora para retirar, para colocar a terra a serviço de um lugar outro, a metrópole, o país colonizador.
A relação com os não humanos segue a mesma lógica. O primeiro gesto do colonizador é “desbravar” — desmatar, limpar, exterminar o que estava ali. A partir disso, a natureza é vista como recurso, plantations para exportação.
Já a relação com os outros humanos passa a se organizar a partir da raça como instrumento de separação: com os povos indígenas, o altericídio — o extérminio do que é radicalmente outro. Com os povos africanos, a escravização de mais de 12 milhões de pessoas, justificada e sistematizada.
Esses não são horrores do passado. Essa arquitetura não desapareceu com o fim formal da colonização.
Colonização e colonialidade: a distinção que importa
Ferdinand distingue cuidadosamente dois conceitos: colonização e colonialidade.
A colonização tem um período histórico — começa, se desenvolve, termina formalmente com as independências. Mas a colonialidade persiste. Ela é a lógica que sobrevive, o racismo estrutural que mantém certos grupos no porão da sociedade, mesmo quando as correntes já não são mais visíveis.
Não temos mais pessoas negras escravizada — pelo menos não de forma oficial, embora ainda haja trabalho análogo à escravidão no nosso país. Mas temos um racismo estrutural que limita de acordo com a raça quem acessa o quê, quem realiza os ditos subempregos, bem como quem sofre primeiro com eventos climáticos extremos. Será por acaso que as comunidades mais afetadas pela crise climática no Brasil sejam comunidades racializadas?
A dupla fratura da modernidade
É aqui que Ferdinand apresenta o conceito talvez mais importante do livro: a dupla fratura.
A fratura ambiental é o que muitos de nós já conhecemos: a separação entre humanos e natureza que sustenta a exploração ecológica, que nos impede de enxergar valor intrínseco na vida não humana.
A fratura colonial é a separação entre colonizadores e colonizados — que hoje não se expressa mais necessariamente entre países, mas dentro das nossas próprias sociedades, nas desigualdades raciais e sociais que estruturam quem vive bem e quem vive no limiar da dignidade, sob constante exploração.
O que Ferdinand mostra é que essas duas fraturas estão conectadas. Ambas foram forjadas no mesmo processo histórico. E a gente tende a continuar olhando para elas de forma separada — o que enfraquece o poder de transformação das lutas frente às duas pautas.
O problema das lutas separadas
Ferdinand escreve isso com precisão:
“Ao deixar de lado a questão colonial, os ecologistas negligenciam o fato de que as colonizações históricas, bem como o racismo estrutural contemporâneo, estão no centro das maneiras destrutivas de habitar a terra. Ao deixar de lado a questão ambiental e animal, os movimentos antirracistas e pós-coloniais passam ao largo das formas de violência que exacerbam a dominação de pessoas escravizadas, colonizadas e mulheres racializadas.”
Ou seja: focar só em um lado dessa dupla fratura acaba não cuidando do outro — que também contribui para o lado que você está olhando.
O movimento ambientalista — frequentemente formado por homens brancos com acesso a universidades e centros de pesquisa — pensa a crise ecológica sem olhar para a fratura colonial. Os movimentos antirracistas e decoloniais, lidando com urgências sociais muito concretas, muitas vezes associam o ambientalismo a uma “utopia dos brancos” — algo que não é para quem está tentando resolver o básico de sua sobrevivência. E um ambientalismo que não envolva a todos, não vai ter a eficácia que precisa ter se a gente quer mudar o rumos da humanidade.
Por uma ecologia decolonial
Ferdinand não está propondo uma justaposição de pautas. Está apontando para algo mais exigente: que as duas fraturas — a ambiental e a colonial — precisam ser enfrentadas juntas, porque foram criadas juntas.
Um ambientalismo que não envolva as populações que mais sofrem com a destruição ecológica não vai chegar onde precisa chegar. E movimentos de justiça social que deixam de lado a questão ambiental deixam de lado uma das desigualdades mais brutais que essas mesmas populações enfrentam, o racismo ambiental.
Portanto, a ecologia decolonial não é um campo novo a ser estudado. É um jeito diferente de olhar — para a crise, para a história, para nós mesmos. Um olhar que pergunta, sempre, quem está no convés e quem está no porão. Uma ecologia que não busque apenas redirecionar o navio para longe da tempestade sem mudar suas estruturas, mas criar um novo navio-mundo sem porões — um mundo comum em que todas as vidas, humanas e não-humanas, possam habitar.
Este texto é baseado na fala de Luiz Gabriel na roda de conversa “Por que decolonizar?”. Quer aprofundar? Participe do Grupo de Leitura do livro Uma Ecologia Decolonial de Malcom Ferdinand.





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