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Dá pra ganhar dinheiro mudando o mundo?

há 2 horas
4 min de leitura

Por Bia Tadema, educadora e diretora da ESB.


E você, o que responderia: sim, não ou depende?


Essa foi a pergunta que levei para a oficina que conduzi no FBES – Fórum Brasileiro de Empreendedorismo Sustentável, em outubro, a convite do Instituto Envolverde. E a minha resposta curta foi: precisa dar.


Dinheiro atende a necessidades reais. Mas não pode ser só isso.


Meu processo


Antes de chegar à Escola Schumacher Brasil, trabalhei anos no mundo corporativo. Eu questionava o propósito do que fazia, e tinha medo de que, se mudasse, talvez não conseguisse ganhar dinheiro.


Fui investigar o que existia. Conheci pessoas e negócios que trabalhavam com propósito.


E encontrei algo que eu não esperava. Muita gente estava ganhando um dinheiro razoável, fazendo algo em que acreditava, e ainda assim estava infeliz. O jeito de viver era muito parecido com o que eu queria deixar para trás.


Vi (e ainda vejo!) muita gente que trabalha com impacto em burnout. Quando o trabalho tem propósito, fica mais difícil parar, dizer não, admitir o cansaço. Parar parece trair a causa.


Foi aí que percebi que não basta mudar o propósito. É preciso mudar o jeito como as organizações funcionam.


Muitos negócios de impacto mudaram o porquê, mas mantiveram o como das empresas convencionais. E eu me incluo nisso.


O que mais está em jogo


Quem me ajudou a ver além foi o economista chileno Manfred Max-Neef. Para ele, o melhor desenvolvimento é o que mais melhora a qualidade de vida das pessoas. E a qualidade de vida depende de as pessoas conseguirem atender às suas necessidades humanas fundamentais.


São nove e, para ele, não há hierarquia entre elas, a não ser quando a própria sobrevivência está ameaçada: Subsistência, Proteção, Afeto, Entendimento, Participação, Ócio, Criação, Identidade e Liberdade. As mesmas em qualquer cultura e época.


Prancheta com o guia de necessidades erguida diante do palco da oficina no FBES

Quando olhamos para o trabalho só pelo dinheiro e pelo propósito, cuidamos de três delas, no máximo. O dinheiro toca a Subsistência e a Proteção. O propósito, quando é só o objetivo do negócio, toca a Identidade.


E as outras seis?


Quando as outras necessidades ficam de fora, o trabalho adoece. Quando são cuidadas, ele floresce.


Propósito também é o como


As necessidades que temos não mudam. Não importa se moramos em São Paulo ou nas montanhas do Tibete, nossas necessidades fundamentais são as mesmas. O que muda são as formas de atendê-las. É isso que Max-Neef chama de satisfatores: as práticas, os acordos, os jeitos de organizar, os espaços e os tempos que fazem uma necessidade ser cuidada, ou deixada de lado.


Ele vai além, e propõe olharmos para os satisfatores em quatro dimensões: ser, ter, fazer, estar. Para pensar nessas dimensões, ele criou uma matriz que cruza as necessidades com as quatro dimensões. Desse cruzamento nascem perguntas que podemos nos fazer sobre nós mesmos, sobre as nossas relações no trabalho e sobre o impacto do nosso trabalho no mundo. Algumas delas:


No que somos: somos cuidadosos, curiosos, tranquilos? No que temos: que acordos, regras e direitos sustentam o trabalho? No que fazemos: descansamos, decidimos juntos, experimentamos? E nos espaços e tempos em que estamos: há pausas de verdade, lugares de convivência, tempo livre?


Participantes da oficina no FBES preenchendo o guia em pranchetas

O que fica rapidamente claro é que mesmo a Subsistência, que é a necessidade mais próxima do dinheiro, não se resume à renda. Ela também passa pela saúde, pelo descanso, por um ambiente de vida saudável. Um negócio pode pagar bem e, ainda assim, ter um ritmo que adoece quem trabalha nele.


Quanto é suficiente?


E aqui cabe uma pergunta que a gente quase nunca se faz: quanto dinheiro é suficiente?


Vivemos numa lógica de crescimento infinito. Do mesmo jeito que se espera que as economias e os negócios cresçam sem parar, achamos que nossos salários também precisam crescer sempre.


Mas de quanto precisamos, de fato, para ter uma boa qualidade de vida?


Essa resposta não é fixa. Ela muda com os momentos da vida: quando chega um filho, ou quando escolhemos trabalhar menos para ter mais tempo. Talvez seja algo para revisitar de tempos em tempos, e não uma meta a perseguir.


Saber o que é suficiente para este momento também libera espaço para olhar para o resto: para as necessidades que o dinheiro, sozinho, não alcança.


Um convite


Na oficina, propus que cada pessoa olhasse para o próprio negócio com um guia inspirado na matriz de Max-Neef, marcando o que ele cuida bem e o que deixa de fora: para si, para quem trabalha junto e para quem o negócio toca. Aqui, deixo o convite para uma reflexão mais ampla:


Guia da oficina com a matriz de necessidades cruzadas com ser, ter, fazer e estar
Guia usado na oficina, inspirado na matriz de necessidades e satisfatores de Max-Neef.

A sua organização, do jeito que funciona hoje, já é um pedaço do mundo que você quer? Um mundo que cuida das nossas necessidades, e não só do sustento?


Quer levar essa conversa para a sua organização? Escreve pra gente, e vamos pensar juntos.


Para aprofundar: Manfred Max-Neef, Antonio Elizalde e Martín Hopenhayn, Human Scale Development (Desarrollo a escala humana); E. F. Schumacher, O negócio é ser pequeno.

 
 
 

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