Uma educação que reconecta: sete aspectos do que a gente pratica na Escola Schumacher Brasil
por Bia Tadema

Existe um modo de existir que nasceu lá na ciência moderna e que hoje domina todos os tipos de contextos: educativos, empresariais, acadêmicos. É uma lógica mecanicista e da separação, que entende tudo como objetos separados conectados de forma causal. Essa lógica de pensar teve um impacto profundo na nossa separação da natureza, da nossa comunidade de humanos e de nós mesmos. Entendemos que as crises dos nossos tempos nascem dessas diferentes qualidades de separação e se desdobram nas diversas crises que atravessam nossa época: a crise climática, a crise humanitária, a crise de saúde mental, a forte herança colonial.
O nosso ponto de partida na Escola Schumacher Brasil é o entendimento de que a educação é parte do problema. Os grandes líderes do mundo foram educados nas melhores escolas, e isso nos mostra que tem algo muito errado na maneira como a gente está se educando. Então nosso ponto de partida é uma educação que reconecta e não que fragmenta, que tenta entender mundo, ser humano e ser coletivo como um ser integral.
A partir disso, articulei sete aspectos que permeiam toda a experiência de aprendizagem que a gente oferece.
1. Educação baseada na experiência
A nossa educação não é baseada na transmissão de conhecimento. Claro que a gente traz pessoas interessantes: ativistas, pensadores que estão na linha de frente do pensamento sobre as crises dos nossos tempos. Mas o nosso entendimento é que o conhecimento não está pronto, e que essas pessoas não estão ali para transmitir o que sabem ou o que precisa ser feito. Elas estão ali para criar deslocamentos em nós.
Esses deslocamentos nos atravessam e viram material de reflexão. O que a gente entende é que a educação nasce do ganho de articulação da experiência, e toda e qualquer experiência tem esse potencial de se tornar educativa. O que a gente faz nos nossos espaços é abrir condições para que isso aconteça ativamente. Um convidado traz reflexões, essas reflexões mexem com a gente, e aí o nosso interesse não é resumir o que essa pessoa disse, mas tentar conectar como esses atravessamentos criados pela troca dialogam com o meu dia a dia, seja como educadora, seja como fundadora de uma startup, seja como ativista na linha de frente.
2. Aprendizado integral: mãos, mente e coração
A gente acredita num aprendizado integral de mãos, mente e coração, uma tríade criada pelo Satish Kumar. Grande parte da nossa educação está focada na educação da mente, e a gente precisa aprender a se educar também no que ele chama de coração: os nossos sentimentos, as capacidades emocionais, tudo que está envolvido em ser um ser humano inteiro e não apenas uma cabeça andante. Trazer o aprendizado para o nosso corpo, entendendo o que o corpo também nos diz sobre todas as nossas experiências.
E as mãos, no sentido do fazer. A gente tem uma educação muito voltada para um certo tipo de inteligência intelectual e muito pouco para os fazeres manuais, e isso também está no cerne do que a gente quer transformar.
3. Aprendizado em comunidade
Nos percursos que a gente cria, a experiência em comunidade é fundamental. Ela cria vínculo e amplia a capacidade coletiva de articular. Consigo pensar até um certo ponto individualmente, e a experiência coletiva possibilita que mais mundos sejam possíveis de serem vistos. A comunidade é catalisadora quando a gente está nessa experiência junto.
Além disso, ela é uma resposta que a gente considera muito central à crise de saúde mental e à crise de solidão que atravessa tão fortemente os nossos tempos. Por isso esse aspecto está na centralidade dos nossos processos.
4. Aprofundar as perguntas, sem pressa
A gente cria espaços para que as perguntas difíceis dos nossos tempos sejam aprofundadas e comecem a se transformar em ação, mas sem pressa. O nosso foco é muito mais em conseguir articular melhor quais são as perguntas, entendê-las mais profundamente.
O que a gente faz normalmente é: vejo algo, julgo, tenho o meu diagnóstico, e acho que algo tem que ser feito. O que a gente propõe na ESB é demorar um pouco mais nesse processo: se lançar de volta aos fenômenos, tentar compreendê-los mais profundamente, para que, pouco a pouco, o conhecimento de contexto se aprofunde e as perguntas virem ações.
5. Diálogo entre saberes
A gente é uma escola que nasce de um pensamento predominantemente eurocêntrico, mas por sermos uma escola brasileira, entendemos que é fundamental trazer os saberes que vivem aqui no nosso território: afrodiaspóricos, indígenas, periféricos. Não para jogar fora os pensadores europeus, mas porque é muito importante que a gente consiga dialogar e aprender com essa riqueza de saberes que vive aqui entre nós, e que é, acima de tudo, em sua raiz, ecológica.
E não dá para entender a crise ecológica sem entender a herança dos processos de colonização. Essas duas coisas estão diretamente ligadas.
6. Ativismo delicado
Alan Kaplan e Sue Davidoff, professores sul-africanos com quem aprendemos, trazem uma crítica que é muito importante para nós: se tivermos a convicção de que estamos certos como ativistas e chegarmos em qualquer contexto com o que precisa ser feito, vamos acabar por reproduzir muitas das violências que criaram os problemas que a gente enfrenta hoje.
Eles nos convidam ao desenvolvimento de uma percepção mais refinada, que nos tire do automatismo e nos convide a estar mais em contato com os contextos em suas individualidades e complexidades. É um convite à observação, um convite a aprender a perceber, e, nas palavras do mestre Bispo, um convite ao envolvimento e não ao desenvolvimento.
7. Vida e educação não estão separadas
É por isso que a gente não tem uma sede física aqui no Brasil. Entendemos que é muito importante estar junto ao que vive nos diferentes territórios, seja fazendo um mutirão numa aldeia indígena, seja anfitriando uma roda de conversa em São Paulo. A gente quer ser esse micélio que se manifesta de diferentes maneiras de acordo com as necessidades e questões que vamos sentindo que são importantes.
A sala de aula não está fechada entre quatro paredes. A vida e a educação caminham juntas, e o que a gente busca é uma integração maior dos processos educativos com a vida prática. Uma vida que, na nossa visão ecológica de mundo, não é só a vida humana, mas a vida mais-que-humana. A natureza de uma forma mais ampla. Uma integralidade que inclui tudo que é vivo.
Pequenos passos
E, por fim, a gente também não acha que existem grandes fórmulas ou grandes soluções esperando para serem encontradas. As soluções estão em pequenos passos, em pequenos movimentos, estão no local, no que responde à necessidade de um contexto em particular. Estão em a gente conhecer esse contexto e criar ações possíveis a partir dele.
O Satish, numa conversa com um grande empresário brasileiro, ouviu a pergunta que talvez mais defina o nosso tempo: "Satish, como é que a gente faz pra ganhar escala? A gente precisa escalar as soluções pra ter um mundo melhor." E ele respondeu, sorrindo: ‘Não tem solução em larga escala. O que precisamos cultivar são pequenos mundos possíveis.
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Será nesta sexta, 9 de Outubro de 2026, das 12h às 13h30.




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